segunda-feira, 9 de abril de 2012

HÁ QUARENTA E SETE ANOS, FOI ASSIM

Faz hoje quarenta e sete anos, é Sábado de Aleluia e o dia nasceu chuvoso, aliás toda a semana assim tinha acontecido chuva e mais chuva, mas o destino estava traçado e nem a chuva o iria impedir de ser cumprido, estava dado como «ausente» na Escola de Fuzileiros há já alguns dias, mas lá comia e dormia, a comida na cozinha a troco de alguns serviços prestados nesta, dormia na caserna  como se nada tivesse acontecido, tinha sido dias antes expulso da Escola de Fuzileiros, após vários cartões amarelos e dois vermelhos, com guia de marcha para o Alfeite, quando o autocarro Militar onde eu seguia com destino ao Alfeite parou junto á porta de Armas da Escola, cavei dali para fora ocultando-me na Mata da Machada que fica paredes meias com a Escola de Fuzileiros até ao anoitecer, daí em diante foi traçar o plano de fuga até França ou entregar-me e ir para a prisão, escolhi a segunda hipótese.

Combinei com dois Amigos de Palhais, o Hugo e o Carlos Bento ambos Civis e traçámos o itinerário que nos levaria até a Fronteira de Espanha num mapa de Portugal de uma agenda de bolso e iríamos sair por sugestão do Carlos que era o mais estudado dos três, em Marvão.
Neste Sábado de Aleluia dormi como de costume na Escola, tomei o café e o almoço na cozinha como vinha acontecendo nos últimos dias, saí de salto ( como não podia deixar de acontecer) junto ao Refeitório com a farda de serviço, segui até á «praia» de Palhais e daqui rua acima até á casa da namorada onde vesti a roupa civil, e por ali estive a fazer horas para a partida, fui  encontrar-me com o Carlos que morava na rua Principal mesmo em frente á Sociedade Local, e aí foi a primeira surpresa, o Hugo «roeu a corda» e não vai, paciência, vamos os dois, na minha situação até ia sózinho, mais dois dias e era desertor perante a Lei, e aí ninguém me livrava do Forte de Elvas de má memória.

Estivemos o resto do dia por Palhais, havia baile na Sociedade local, aí estivemos até cerca das vinte e três horas, uma Sobrinha do Tenente Carlos Oliveira, o segundo responsável  (o primeiro fui eu) da situação criada e sem saída, tinha ouvido que eu queria fazer a folha ao Tio, e pedia-me por tudo para que eu nada fizesse contra o ele, sosseguei-a como pude dizendo-lhe que tinha sido transferido para outra Unidade e portanto seria o meu último dia por ali, lá partimos estes dois doidos a pé, por estradas desconhecidas com a tal agenda servindo de G.P.S., sempre na berma e quando se aproximava um carro escondi-amo-nos, (felizmente que naquele tempo os carros eram raros) isto por receio que fosse algum carro da Marinha ou da Policia pois nesta altura receava que tivessem dado o alerta da minha fuga. E a chuva que não parava, o dinheiro que levávamos era muito pouco e fomos forçados a uma dieta rigorosa, caminhávamos mais á noite, de dia descansávamos como podíamos sempre á procura dum abrigo contra a intempérie.

Passámos por Vendas Novas, Montemor-o-Novo, Évora, Vila Viçosa, Borba, Vila Boim e Elvas, aqui chegados ao fim de cinco dias de caminhada pôs-se o problema., vamos para Marvão, ou arriscamos e vamos para o Caia e poupamos uns quilómetros valentes? votámos Caia, avançámos já noite, a chuva cada vez com mais intensidade, molhados até aos ossos encostados a oliveiras, esperámos o nascer do dia para ver onde podíamos passar para Espanha sem sermos apanhados, o Rio levava um caudal de meter respeito, sabemos nadar mas não vamos arriscar pois não vamos conseguir passar, a corrente é muita, aproximámo-nos da estrada, passa um Rapaz numa motorizada que nos vê, passados dois minutos temos a P.I.D.E. junto de nós, rende-mo-nos, perdemos esta guerra, somo levados para o Posto, ouvimos perfeitamente que alguém estava a enfardar, olha-mo-nos e abanamos a cabeça em sinal que a seguir era a nossa vez de apanhar, estava a chegar a nossa hora, estes gajos não perdoam nem á família deles.

Mas não, é um alivio para já, somos identificados, eu não digo que sou Marinheiro aparentemente também não desconfiam, tenho dezanove anos, portanto ainda não tenho idade de estar na Tropa, somo levados para o Posto da P.I.D.E. em Elvas num Citroen dois cavalos, dois agentes no banco da frente, sinal que não receiam nada de nós, vamos calados, chegá-dos ao Posto vão arranjar um bife com batatas fritas para comermos, não estava a correr mal não senhor, acabados de dar ao serrote, separam-nos, (separação essa que vai durar cerca de trinta e cinco anos), de manhã, um novo PIDE (mas velho de idade) abre a cela onde eu estava, e dispara: então o Menino é tropa! não disse que sim nem que não, fiquei a  olhar para o gajo, que acto continuo me dispara um bilhete postal que até abanei, mete-me novamente na cela, e por ali estive a pensar no iria ser a minha vida daí para a frente, só pensava no Forte de Elvas, agora como já estou aqui na Cidade e como já descobriram que sou Tropa, se calhar até já vou direitinho para lá, onde eu me fui meter, grande merda esta que agora estou nas mãos deles, e embora já perito em fugas daqui não vou sair, bem olhava a ver se havia algum possibilidade mas qual quê nem uma janela tinha, e a porta era intransponível, só me resta aguardar.

Horas depois outro P.I.D.E. abre a porta e manda-me sair, estou lixado lá vou eu carregar  barris de água para o Forte, não! ainda não era desta, meteram-me num carro Militar e foram levar-me a um Quartel lá na Cidade; Batalhão de Caçadores 8, foi uma festa, os poucos Militares que estavam presos mais os que passavam por lá para cumprimentar e dar tabaco ao Marinheiro «uma ave rara por aqui»  não fora o facto de estar preso diria que aquilo já parecia um daqueles Resorts de Cabo Verde frequentado pelo Dias Loureiro e seus pares, foram cinco dias em que nada faltava, o único problema era o futuro, o que me iria acontecer quando a Marinha me viesse buscar, ou iria daqui para o Forte? a espera acabou, ao quinto dia apareceram dois Marinheiros, um com esse posto e um Cabo, ambos já com comissões feitas no Ultramar com cara de poucos amigos, cada um de Pistola á cintura e um par de algemas, estou tramando não me digam que estes me vão algemar? não foram, o Marinheiro era meu conhecido, fez-me prometer que não ia tentar fugir, o que diga-se era praticamente impossível, embora ainda me tenha passado pela cabeça, quando fui á casa de banho no comboio.


Um carro da Unidade Militar foi-nos levar á Estação do Caminho de Ferro, e daqui seguimos até Santa Apolónia, num percurso de várias horas, daqui a pé até á doca da Marinha, e deste local na Vedeta da Marinha até ao Alfeite, aqui chegá-dos novamente sou engaiolado, aqui conheço entre outros o «famoso» G3, aquilo era o fim do mundo, uma sala grande com colchões no chão alguns quarenta Homens juntos, brigas a toda a hora, do piorio, um gajo que fosse fracote estava feito, enfim ao fim de uns dias um Rapaz da minha Incorporação ex-Aluno da Fragata D. Fernando, que ia ser expulso, e por conseguinte tinha que fazer o espólio da farda Militar, pede-me a minha roupa civil, que no dia seguinte ma vinha trazer, até hoje! Entretanto também eu levo o mesmo caminho, e quero roupa civil, mas o sacana do «Fragata» levou-a, vou ter que fazer chegar á minha Mãe a noticia que eu não queria dar, para ela me vir trazer roupa, vou-lhe dar um grande desgosto, mas não tenho solução, dinheiro para comprar outra não tenho, e não posso levar a roupa que é da Marinha, faço chegar o recado via telefone, e no dia seguinte tenho a minha Mãe no parlatório a entregar-me a roupa, e chorando copiosamente. Foi duro, para ela, e para mim, muito duro, foi o culminar duma aventura que estava condenada ao fracasso logo á nascença.

                                          O REENCONTRO 35 ANOS DEPOIS

Passada a tempestade, e cerca de dois anos depois desta desventura, e outras que se lhe seguiram não menos dolorosas, volto a Palhais, para rever a ex-namorada de quem me esqueci de despedir, e reencontrar os meus Amigos, Hugo o arrependido de última hora, e o Companheiro de aventura Carlos, a primeira foi um ar que lhe deu, diz-me a Família que estava com uma Avó, ao segundo também não pus a vista em cima, e ao Carlos também não, diz-me a Mãe que trabalhava e morava em Sines, fiquei na dúvida se estava realmente em Sines, ou se ela estaria a pensar que eu o vinha desafiar para nova «viagem», e á cautela não me forneceu mais dados.
Passaram mais trinta e tal anos e um dia sou procurado na minha Terra pelo Carlos, claro que eu não estava lá mas indicaram-lhe a morada da minha Mãe, contacto estabelecido, e o primeiro encontro marcado que aconteceu aqui em casa em Porto Salvo, temo-nos mantido em contacto, junta-mo-nos de vez em quando, ele quase sempre no Estrangeiro a trabalhar, agora com alguns problemas de saúde a apoquentá-lo, o Hugo já se foi, e eu também irei um dia destes, não que tenha pressa, mas estou na linha de partida como é natural e basta um pequeno empurrão e lá vai ele.

Isto que aqui fica escrito só tem sentido olhando para a época do acontecimento, onde sair do País mesmo legal era um caso dos trabalhos, para além das Policias normais, havia a famigerada P.I.D.E. com os seus lacaios informadores, mais os Legionários, etc. toda esta gente dispersa pelas Fronteiras.
Era um País onde dar um passo em falso era a morte do «artista». Só tendo passado por esse período negro da nossa História  compreenderá esta aventura.
Não tenho nem nunca tive dúvidas que o tal rapaz que nos denunciou, era um bufo! mais um num Pais de bufos, fica o agradecimento aos Alentejanos que nos viram e apoiaram  nomeadamente numa Pedreira em Vila Viçosa e os Trabalhadores Agrícolas numa Quinta já no Caia, e não nos denunciaram.

5 comentários:

Edum@nes disse...

Num dia chuvoso assim
Era sábado de Aleluia
Teu destino o quis sim
O que melhor para ti seria!

Que a fuga aconteceu
Do Alfeite para França
No Caia o bufo apareceu
Pondo fim à esperança!

Mesmo assim tiveste muito sorte
Para o B.C nº8. foste levado
Te livraste de carregar água para o forte
Por carrascos escoltado!

Tudo acabou em bem
Melhor assim ter sido
Das recordações quem as tem
Do passado ter sofrido!

Um abraço
Eduardo.

António Querido disse...

Grandes aventuras que tens para contar meu amigo, eu tive mais sorte ao passar a fronteira, não fui visto!
Mas agora já sei que não foi nos fuzileiros que te habituaste, às grandes caminhadas!
O meu abraço e agora não fujas, porque a Troika vai-te buscar.

Isabel disse...

Olá Mano,
Gostei muito de ler esta tua aventura.
Tens uma memória incrível! Contas com tais pormenores, que até parece que passaram 47 dias em vez de 47 dias anos.
Isto não é ficção! Foi a realidade. Fui isto exactamente que a mãe contou, mas com mais uns detalhes que gostei de saber.
Conforme escreves-te foi um grande desgosto para a mãe ver-te atrás das grades, mas ela tinha muito orgulho em ti, assim como todas as tuas manas têm! Para nós, és o nosso herói! É um grande privilégio ter um irmão como tu! Um homem bom e honesto.
Obrigada por seres assim!
Adorei ver as tuas fotos das procissões! Gosto muito de recordar.
Beijinhos da mana Isabel

Anónimo disse...

Repeti o texto para não perder nenhum detalhe... Lembrando-me a primeira vez que passei a fronteira sendo a minha liçenca militar examinada "à lupa" pela PIDE porque sair da tropa aos 20 anos não era muito comum... Um abraço.
Valdemar Alves

Tintinaine disse...

Sem dares por isso, pouco a pouco, vais escrevendo a história da tua vida. Talvez não seja o capítulo mais importante da tua vida, mas este é com toda a certeza um dos que mais te marcaram. Por isso o recordas com tamanho detalhe.