quinta-feira, 21 de junho de 2012

Vila Verde Ontem

Ontem dei um salto á Terra, mas da parte da tarde, ao contrário do habitual que; ou fico lá de um dia para o outro, ou desde que a Patroa adoeceu vou de madrugada e antes das oito já lá estou, agora com os Netos de Férias tenho-os cá a fazer-me companhia, e tenho estado mais ocupado, assim reguei o que era de regar, apanhei umas ameixas, comprei um saco de batatas novas, mais um resto das velhas que ainda lá tenho guardadas na adega do meu Amigo José Pedro a quem compro para todo o ano e que faz o favor de mas guardar e tratar o ano inteiro, e como não podia deixar de ser quando ele está lá aproveito para mandar mais um bocado de colesterol pelos montes e vales que cercam Vila Verde com o meu Amigo Vicente, e regressei a Porto Salvo ao fim da tarde.

A Caminhada foi mais uma vez um bocado longa e uma boa parte por difíceis caminhos, mas o Vicente já tinha saudades do «Penedo dos Ovos» e lá fomos direitos á "Fonte Nova" (por acaso muito mais velha que nós) caminhos das das propriedades agrícolas até á Furuana, Chorão a seguir a estrada que vai para o Avenal junto á pista do motocrosse seguimos junto aos Moinhos, e no último deles vimos um Homem a fazer girar manualmente os mastros do moinho sem as velas desfraldadas, fomo- -nos aproximando, dissemos quem éramos e ao que vínhamos, afinal a Pessoa até é Irmão de um nosso Amigo que mora em Vila Verde á muito, e explicou-nos o que andava a fazer, o que achámos curioso, os moinhos têm búzios, que são uma espécie de cabaças em louça, e que apenas servirão (julgo eu) para fazer som, como são de diversos tamanhos até sai um som agradável, pois o Proprietário do Moinho andava a tirar ninhos de dentro desses búzios, uns pássaros que segundo ele são maiores que os melros mas tal como estes de côr preta fazem criação dentro dos búzios e depois acabou-se a «música» que eles produzem.

Seguimos então até ao Penedo dos Ovos, (não conto a história do porquê do nome para os meus conterrâneos não se melindrarem) e só ai percebi a vontade que o Vicente tinha de lá ir, eu conto que ele não vai levar a mal com certeza, ele está á muitos anos nos E.U.A. e durante muitos desses anos não tivemos contacto, pelo que não acompanhámos as vidas de um e outro nesses anos todos, e como todos sabemos mesmo aqueles como eu que nunca estiveram nos States, que por lá há muitas religiões, parece que em cada esquina há uma a fazer concorrência á outra, e o nosso Amigo Vicente também tinha de arranjar a sua, que só ontem descobri, ao vê-lo subir ao dito Penedo, levantar as mãos aos Céus, e fazer ali mesmo como que o «sermão da montanha», é certo que falou em Inglês e eu não percebi patavina, mas basta ver a maneira como ele levantava as mão para não ter dúvidas, após aquele bonito sermão desceu, eu confesso que até estava com receio que em vez de descer ele subisse, mas não, veio mesmo para baixo e deu tudo certo, e lá fizemos mais uns quilómetros (oito e meio no total) até Vila Verde onde nos despedidos até para a semana.

domingo, 17 de junho de 2012

E DEPOIS DO ADEUS!

Em especial para minha Irmã Isabel, (que tal como os meus Filhos)  não gostou que eu tivesse mandado as mensagens do outro blog para o lixo, resumo aqui os cinquenta anos que se seguiram aos acontecimentos que relatei na mensagem anterior, se achares que tem interesse copía antes que me dê na cabeça e este siga o caminho do outro, não gosto de guardar o que aqui vou escrevendo por muito tempo, penso que, quem tem algum interesse na leitura de alguma mensagem o fará uma vez e quando ela ainda está «fresca» e não volta a ler a mesma, pelo que não faz sentido postar aqui uma chuva de mensagens a maior parte para «encher chouriços» como se diz na gíria, e estar a guardá-los como coisas importantes, que não são.
Não fui capaz de encurtar mais resumo dos meus últimos 50 anos, pelo que fica um pouco extenso, e ninguém irá ler isto tudo, mas também não achei bem estar a dividir a mensagem por várias, e assim sendo, aqui fica uma seca, para quem se atrever a ler de fio a pavio.


Na mensagem anterior ouve uma vida que terminou, mas outras que continuaram, entre estas a minha, que muito embora  a tenha tratado muito mal, conseguiu chegar aqui, e o melhor que foi capaz foram cinco dias em coma, diz-se e com alguma razão «que vaso ruim não quebra» talvez se me aplique bem o ditado, o que sei foi que não fiz nada para me poupar, pois a vida pesava-me como chumbo, mas a tudo resisti, cheguei á conclusão que o melhor era mesmo não contrariar o destino, pelo que a partir de certa altura foi olhar em frente, tentado passar os obstáculos que a vida sempre apresenta, tropeçando, caindo e levantando-me, e para meu espanto, agora até faço dietas, caminhadas,  análises e outros exames complementares como aquele da Próstata (que ainda hoje não sei que fui ao cair nessa)! tudo isto para ver se cá fico mais uns tempos, a vida tem destas coisas.

De qualquer modo a seguir aos acontecimentos que relatei na mensagem anterior, andei por aí de trabalho em trabalho, até aos 18 anos, mais desaparafusado que nunca, até que o meu Amigo e vizinho  Adelino que estava na Marinha me desafiou a concorrer, pois diz-me ele: É pá! lá sempre tens comida e boa, já que parece não dares muito valor á vida vais para os Fuzileiros, daí até a uma das Guerras em África é um pulo, lá levas um balázio, e ainda te pagam o funeral e tudo, pois é mesmo isso que eu estava á espera, não é tarde nem é cedo, fui-me inscrever, (já não recordo onde) sou chamado, fiz as provas respectivas e sou alistado, mais uma vez as coisas não deram certo, por lá andei um ano e tal, mas com tantos castigos  já nem em armas de fogo me deixavam mexer, a única arma se assim se pode chamar eram os sabres da velha Mauser e só para fazer plantões de castigo, a tal ida para a guerra estava assim fora de questão, pelo que acabei por cavar dali, tendo sido apanhado pela P.I.D.E.  na fronteira do Caia, história que já contei anteriormente.
No inicio do Verão de 1966 sou expulso da Marinha após uns dias no xilindró no Alfeite! Não volto para a Terra, fico por Oeiras onde tinha  Família, o meu Cunhado arranja-me trabalho para o Motel Continental, (hoje Inatel), onde assentei praça em Junho desse ano e por ali fico algum tempo, mas o juízo (se é que isso existe),  andava noutras paragens, queria era uns copos na companhia dos meus Colegas de trabalho, ao fim duns Meses voltei para a Terra, mas por pouco tempo, voltei novamente para Oeiras e também mais uma vez para o Motel, mais umas noitadas e uns copos de regresso á Terra estou apanhado do clima e não durmo, passam os dias e nada até que uma noite a coisa explode, estou sozinho, fraco, e sem saúde mental para prosseguir o caminho, os meus Amigos Padeiros apercebem-se que estou a ir ao fundo e lançam-me uma bóia através do Padre Morais, e da Professara Adelina, sou internado em Março de 1967, em Julho saio sem alta Médica, História que já contei noutra ocasião.

Tenho nesta altura 20 anos, e como fui expulso da Marinha, para efeitos Militares é como  nunca tivesse estado na Tropa, e vou ser chamado em breve para cumprir o Serviço Militar obrigatório, envio uma carta para o meu Distrito de Recrutamento (Santarém) a pedir para ser incorporado na primeira incorporação de 1968, assim aconteceu fui chamado para Infantaria 7 em Leiria, logo no primeiro dia desentendo-me com um Cabo Miliciano, e sou aconselhado ( por um Furriel que não gostaria do tal Cabo) a dar baixa á Enfermaria, para não sofrer maiores males, assim faço, sou enviado para o Hospital Militar em Coimbra, onde passo uns dias, sou enviado para o Hospital Sobral Cid, para fazer um Eletroencefalograma, que terá confirmado que havia parafusos desapertados, ou quiçá falta deles e mandam-me em paz, no dia 24-2-1968 com a recomendação de pagar todos os anos a Taxa Militar.

Estou livre do compromisso Militar, vou ter de entrar na linha, tenho 21 anos mas estou a ficar velho, vivi e sofri por mais de 5o anos, mas isto não é carregar num botão e já está! é mais complicado, ficaram sequelas do passado que dificílmente curarão, mas tenho que me esforçar para que isso aconteça, ando por aqui e por ali, trabalho nas mais diversas profissões, a maioria das quais ligadas ao ramo automóvel, quase sempre por Lisboa e Oeiras, até que um dia estou na Loja do meu Cunhado em Oeiras, a dar uma ajuda, entra uma Rapariga que eu me apresso atender, embora não trabalhasse lá, conhecia os cantos á casa em virtude de ajudar nos inventários de fim de ano, sorriso para aqui piada para acolá, uns dias depois reencontro-a, pois morava em Oeiras e ela também, nem há namoro, casámos um Mês depois, e ainda dura, estávamos em Janeiro de 1969, ia fazer 22 anos dentro de dias.

Mas o casamento só por si não dá garantias de acertar o passo com a vida que é dura, continuo a fazer a vida de solteiro, trabalho aqui e ali, mas assentar é que não, vamos até Lamego diz-me a minha Maria, na esperança que a mudança de ares me acalmasse, vamos viver para a casa dos Pais que fica a cinco quilómetros da Cidade, mas o ambiente por lá também não era dos melhores e alugámos uma pequena casa que pertencia ao Castelo da Cidade, por ali estivemos algum tempo, mas trabalho é que não havia, vamos para Oeiras que ali arranjo trabalho facilmente, assim aconteceu, o meu Amigo Dr. Gusmão mete uma cunha, e vou para a Torre do Tombo, nesta altura ainda no Palácio de São Bento, estamos no inicio de 1971 as coisa começaram a acalmar, moro em Paço de Arcos onde já tenho um Grupo de Amigos com juízo que me ajuda a entrar na linha, deixo as bebidas  totalmente, noitadas nunca foi o meu género pelo que estavam criadas as condições para a máquina passar a funcionar melhor.

Na Torre do Tombo aproveito para tirar a carta de condução, e após alguns Meses de permanência (um recorde) desatino com o Director e despeço-me,  trabalho não faltava nesse tempo pelo que não foi difícil recomeçar, agora fazendo uso da carta de condução ainda fresquinha, vou para Alcoitão como chofer e caseiro e a minha Mulher para cozinheira dum Casal Sueco, e onde nasce o meu primeiro Filho Varão, aí permanecemos uns Meses. No Verão alugaram a casa (e a nós próprios sem nos consultar) a uma Americana maluca, que não queria Crianças lá em casa pelo que tive a Menina dois meses escondida até ao regresso dos Suecos, embora com Menino que tinha apenas dois Meses a maluca não tenha colocado objecções á sua permanência na casa, no regresso dos donos da casa em Setembro apresentei a minha demissão, pelo vexame porque passámos! é a vida.

Tinha já trabalho quando de lá saí, para chofer particular duma Família Amiga de Paço de Arcos, conhecia toda a Família excepto aquele para quem iria trabalhar, contrataram-me dizendo-me que era como se fosse da Família (por eu ser Amigo do Genro entretanto falecido em acidente de viação) ao fim de algum tempo vem com uma conversa de merda, desconfiando da Nora (lá teria as suas razões) e que eu quando a fui transportar fui armado em galã, por não ter ido fardado, (era o meu dia de folga), e que o Filho estava em África e depois as Pessoas falavam e mais isto e aquilo e pardais ao cesto, para eu quando a transportasse ir fardado! uma verdadeira conversa da treta,  mandei-o dar uma volta e despedi-me.

Fui de seguida contratado para fazer a reparação da Iluminação Publica do Concelho de Oeiras, e ainda Queluz e Cacém do Concelho de Sintra, um trabalho á minha medida, não estava preso entre quatro paredes  (galo do campo não quer capoeira), ar livre é que é bom, estamos no ano de 1973, a coisa caminha sobre rodas, sou o responsável pelo serviço, e só vou a Lisboa prestar contas ao Patrão uma ou duas vezes por semana, recebo directamente da C.R.G.E. as avarias, faço as reparações ou substituo os candeeiros inutilizados com o meu Ajudante e dou mais tarde conta do trabalho feito e respectivas despesas, nomeadamente com o combustível da viatura,  o meu pré e do meu Ajudante.
Até que chega o "Verão Quente" de 1975, e terminam abruptamente o contrato com a Companhia de Electricidade, e eis-me mais uma vez no desemprego, e agora a coisa fia mais fino, devido á efervescência do momento está complicado arranjar trabalho.

Aproveito todos os trabalhos que vão aparecendo, para ganhar algum, mas trabalho certo nada, até que em meados de 1976, arranjo trabalho nos Serviços Municipalizados de Oeiras, onde permaneço até á aposentação, finalmente consegui criar raízes num trabalho, comecei pelo degrau mais baixo da escada, subi até ao mais alto dentro da categoria, cunhas! Fui sempre bem tratado por Superiores e Subordinados, sei que nem sempre fui muito «diplomata» no relacionamento Pessoal, sou um bocado «casca grossa», e com o coração ao pé da boca, e quando as coisas não iam ao meu gosto lá saía foguetório, mas todos já me conheciam o suficiente para compreender que era sempre para melhor servir quem nos pagava o ordenado ao fim do mês, os Consumidores.






terça-feira, 12 de junho de 2012

12-6-1962 / 12-6-2012 = 50 Anos


Ano Novo, vida velha! Acaba de entrar o Ano de 1962, estou na cama no primeiro andar junto á escada, a minha Irmã mais nova a única que cá está, (as duas mais velhas já foram trabalhar para longe) dorme na outra cama o sono dos justos, a discussão no quarto do rés do chão já dura á horas, o meu Pai e a minha Mãe parecem relógios de repetição, o Pai chegou á horas da taberna já com os copos e desata a chamar nomes á Mãe, ela vai respondendo sempre, e a música não tem fim, que merda de vida esta, vou fazer quinze anos daqui a dias, já fui Leiteiro, (vendedor de leite porta a porta) Trabalhador Agrícola, Apontador e Analisador de vinhos e Padeiro mas não me fiz velho em nenhum desses trabalhos e voltei sempre aqui, e ao trabalho agrícola na Quinta do Rui do Rato, mas estou farto desta vida, os dias passam e as discussões não acabam. Ouço passos pela escada acima é outra vez a minha Mãe que se vem deitar ao pé da minha Irmã, e deixa o meu Pai a falar sozinho, a coisa agora ainda piora, porque o som aumenta devido á distância, com ele no seu vocabulário vernáculo e ela a responder á letra, estou farto e digo á minha Mãe que não lhe dê troco que ele cala-se, assim acontece passado algum tempo, finalmente posso dormir.

Os dias passam e as coisa não mudam, hoje é dia 27 de Janeiro, faço 15 anos é Sábado mas o trabalho no campo não tem semana Inglesa, e tem a vantagem de ser o dia de receber a jorna, curta Jorna, andei toda a semana a caminho da Quinta para nuns dias ganhar um «quartel» noutros meio dia, noutros para apanhar umas molhas e não ganhar nada por causa da chuva, chego ao Sábado com um total de dois dias e um quarto de sálario, saímos do trabalho depois do Sol posto e rumamos á Quinta do Porto Franco, na Cortegana para receber os magros escudos que ganhámos nos poucos dias que trabalhámos, chego a casa por volta das dez e tal da noite, tenho uma sopa e um pedaço de frango á minha espera, hoje há rancho melhorado, a minha mãe dá-me os parabéns pela segunda vez nesse dia, já o tinha feito quando me levantei de madrugada, o Pai já dorme e a Irmã pequena também, estou cansado e já não vou até á taberna jogar á bisca (era das poucas distracções que havia aos Sábados á noite), deito-me e adormeço rapidamente.

O tempo vai passando, e as coisa vão piorando, o meu Pai trabalha uns dias mas fica muitos outros em casa na ressaca de muitos dias seguidos sem estar sóbrio, a minha Mãe cada vez mais implicativa pois são quatro bocas e só a minha jorna é curta, ela lá vai escrevendo umas cartas ás Vizinhas que na sua maioria não sabe ler nem escrever, e outros trabalhos na casa destas, o que vai ajudando. Trabalhar fora o dia todo só pela vindima, vai fazendo a ginástica possível para não passar-mos fome, mas está difícil, chega a Primavera começam as pulverizas há mais trabalho e são melhor pagos, mas o meu Pai embora só tenha 55 anos, devido ao álcool já não tem forças para fazer a grande maioria dos trabalhos agrícolas, vai andando a cortar mato para a cama dos animais e pouco mais, eu já ganho igual aos Homens já vai dando uma ajuda, dou tudo o que recebo á minha Mãe, e ela vai-me dando uns tostões para os cigarros, que compro avulso no « Sr. Artur dos Cucos» já fumo há uns três anos, obra do meu Amigo «Jeca» ( não te estou a culpar Jeca, só a assinalar um facto) quando saiu do Seminário em Santarém para comemorar, pois estava lá contrariado foi ao café dos Pais e lá vai tabaco, que fomos saborear juntamente com o Victor, só parei passados mais de trinta anos.

O tempo vai correndo e já estamos em Junho, o calor chegou nesta primeira semana do Mês as temperaturas subiram muito, ando nas últimas pulverizas do ano, agora o trabalho vai ser cortar ervas nas vinhas, surribar, e roçar mato daqui até ás vindimas, isto dá cabo do canastro a um Gajo, no Verão que é a estação actual, o dia tem mais de 15 horas, é certo que temos três quartos de hora para o almoço, duas horas para o jantar e sesta, e ainda quinze minutos para a merenda, esta serve mais para descansar o corpo que para comer, pois este já se foi todo ao almoço, de qualquer modo são muitas horas, tenho que ver se arranjo outro trabalho, pode ser que vá outra vez para as Paredes para Padeiro, já lá estive duas vezes os patrões gostam de mim, mas eu e o Patrão por vezes fazemos faisca, mas é bom Homem tal como a Esposa e os três Filhos, vamos ver o que vai sair daqui, não quero é ficar agarrado á enxada toda a vida, isto não é trabalho, é escravidão.
Os dias passam e a tortura de trabalhar do nascer ao pôr do Sol continua, acompanhado do calor é ainda mais complicado, o meu Pai a semana passada andou quase toda ela bêbado, agora ficou de cama e há três dias que não sai, não come nem bebe, não ralha nem fala nada, a minha Mãe diz que quando ele tiver fome logo se levanta, mas eu estou preocupado porque nunca o vi tantos dias sem se levantar, pergunto-lhe se precisa de alguma coisa e diz que não, desde Sexta que não se levanta e hoje já é Terça dia 12 de Junho quando a minha Mãe me acorda para eu ir trabalhar ás cinco da madrugada, ouço a porta da rua bater, era ele que ia a sair, espreitei pela janela e vejo que leva ao ombro a saca de serapilheira (que servia para abrigo da chuva, para assentar o traseiro na hora da refeição ou o corpo inteiro na sesta), e em cima desta a enxada, pronto já passou a «greve da fome» e vai trabalhar ainda bem, está sóbrio e quando assim acontece pelo menos não á discussões.

Hoje não tenho companhia para fazer os cinco quilómetros que tenho de percorrer até á «Charnequinha», é da maneira que chego mais depressa, pois com a «Tia Oliva do Catuça» não posso correr e assim se o Sol estiver quase a nascer sempre posso dar uma corrida, senão o Caseiro já não me deixa pegar ao serviço e tenho que esperar para trabalhar (e ganhar apenas os três quartéis) subo a Rua direita passo ao pé do Palácio e vem em sentido contrário o meu parente João Miranda (homónimo do meu Pai e primo em segundo ou terceiro grau) demos os bons dias e ele diz-me! ó parente, está ali ao pé do poço do Anjo da Guarda uma saca e uma enxada que parecem do teu Pai, continuou o seu caminho sem dar importância ao assunto, e eu só, ainda de noite lá me dirigi ao poço, estive junto a ele, mas não sei se olhei para dentro dele, ainda era escuro na rua muito mais dentro do poço, mas também não precisava de ver nada, sabia que era verdade, o meu Pai estava lá dentro, bastava-me saber que ele estava sóbrio quando á poucos minutos saiu de casa para não ter dúvidas.

Dirigi-me não á minha casa mas á do meu Tio Júlio, dando-lhe conta do sucedido, a partir daqui não recordo mais nada, não sei onde estive ou por onde andei, foram quase cinquenta anos sem coragem para falar ou escrever sobre o maior desgraça que me podia acontecer, a morte é sempre má, mas quando se morre desta maneira propositadamente em local onde se sabe que o Filho vai passar dentro de poucos minutos! é macabro, é demais, foi um murro no estômago que não consegui superar e vai comigo para a cova, caí e levantei-me muitas vezes daí em diante, andei quarenta e oito anos a remoer sozinho esta mágoa incapaz de falar no assunto com quem quer que fosse, até que o Blogue me fez o que os anos não conseguiram fazer, escrever e posteriormente falar (quase) abertamente no assunto, estou mais aliviado, a partir do momento em que escrevi e falei sobre o assunto á cerca de dois anos. Mas ficou-me ainda a faltar uma coisa, que desde então tenho procurado encontrar.

Faltava-me saber a data do acontecimento, e onde o meu Pai foi sepultado, pois nunca tive coragem de perguntar a ninguém que me pudesse ajudar, o Coveiro da altura já há dezenas de anos falecido, o Sr. Florival que tratou do enterro ou a minha própria Mãe também já partiram, este assunto não tem mais solução, foi á tempo demais para alguém saber responder, restava-me a data, falei com as minhas Irmãs, em especial as com mais idade que eu, mas não me puderam ajudar, falei com os meus Filhos para ver se através da Internet se podia aceder aos Registos Civis, era possível mas pediam dados que eu não tinha, até que a Filha se lembrou de contactar o Padre da Terra que forneceu alguns dados importantes, mas não a data do acontecido, falei com Amigos que me deram a sugestão da Junta de Freguesia, e o meu Amigo Vicente fez o resto, finalmente ao fim de cinquenta anos estou mais aliviado, sei a data da morte do meu Pai, coisa simples mas importante para mim, obrigado aos que de alguma maneira me ajudaram a aliviar o fardo, embora a cruz tenha de a carregar até ao fim.












Explicação

São cinco horas da madrugada, estou hesitante se ei-de ou não publicar aqui a mensagem que se segue,  é uma coisa muito pessoal, mas o blog também o é, e decido ir em frente, quando me der na telha apago-a.
A mensagem foi escrita no outro blog, que se destina a consumo próprio, assim como que um «Muro das Lamentações»  ao qual dei o titulo de "O Morto Vivo" e que há algumas semanas esteve aberto «á navegação» mas copiei-a para aqui esta madrugada, pesando os prós e os contras considerei importante mostrar aqui neste blog durante alguns dias para que as minhas Irmãs a ele tenham acesso, pois pode também ter interesse para elas, visto ser do seu desconhecimento grande parte do  que aqui escrevo, e quero partilhar com elas estas linhas, que poderão abrir portas para falar-mos Pessoalmente sobre o assunto num futuro próximo, coisa que nunca aconteceu até hoje, foi sempre um assunto tabu para nós todos, abro então esta porta, fechada faz hoje 50 anos.
Não há réus  neste caso que me afectou gravemente, há apenas Vitimas, em primeiro lugar o meu Pai que devia ter sido tratado, a minha Mãe, que teve de fazer de Pai e Mãe ao mesmo tempo e com que sacrifício, e eu próprio que vivo á cinquenta anos diariamente com este pesadelo.

domingo, 10 de junho de 2012

Na Rota dos Moinhos de Vento

Ontem fui até Vila Verde, o meu Amigo Agostinho foi de «vacances» para a Praia, e como é ele que trata do meu quintal e tem sempre a coisa nos «trinques», não podia deixar secar a horta, pois tem lá tomates, pepinos, pimentos courgettes, e feijão verde (a cor do feijão não me agrada muito, penso que até foi ele que inventou aquela cor como Sportinguista que é, só para se meter comigo) mas enfim tirando a cor, o resto até se come.
Para além disso também fui dar uma rega nas orquídeas da «Patroa», e arejar a casa, aproveitei para desafiar o meu Amigo Vicente para uma caminhada, e quando estava acabar a rega eram para aí sete e meia já ele estava preparado para o ataque ás serras das redondezas, é assim mesmo, de manhã é que começa o dia.

Fomos abastecer ao Victor, e de conta quilómetros á cintura lá seguimos junto ao Palácio, para "Observar" o andamento dos trabalhos da nova Escola, que é suposto ser construída na Cerca, terrenos que fazem parte do Palácio, como já mostrei noutra ocasião o desaterro andou, não faço ideia se já terminou, mas já aqui confessei as minhas dúvidas quanto á construção da Escola propriamente dita, desta vez não é só o meu pessimismo a funcionar, e também não é aquela máxima de São Tomé: que é ver para crer! desta vez tenho a informação de Pessoa que segue a obra de perto que  mostrou muitas dúvidas que a coisa vá além da construção dos muros circundantes, espero que esteja enganado e que a obra se faça.

Seguimos pela encosta Nascente onde estão os moinhos do «Zé da Rosa» e do Albino, descemos junto á Furuana, seguimos pelo caminho que vai dar ao Convento, moinho do Casaca, e do Sr. Dionísio, descemos direito á casa do «Cabaça» e daqui até á fonte dos namorados, onde saciei a sede, pois já lá iam cerca de seis quilómetros, subimos até á estrada do Convento, descemos e parámos na casa do nosso Amigo «Zé Domingues» onde fui presenteado com um par de cornos como se pode ver numa foto (espero que a patroa não a veja pois pode ser mau presságio) daqui foram mais umas centenas de metros até a casa, não sem antes fazer-mos uma plantação de flores que o Vivente e a Esposa me ofereceram. No total sete quilómetros, mas Vicente, em conversa posterior com a minha Irmã, parece que temos que dar mais uns passos, pois ela gostava de passar pelo «Penedo dos Ovos» com o grupo que vai trazer, portanto prepara-te que temos de ir fazer o reconhecimento e medição da distância.


Depois foi o duche da ordem, uma paragem na Adega do meu Padrinho que estava a encher boxes de tinto na companhia de um dos Filhos, dois dedos de conversa para saber da saúde da Família, e arranquei, como vi o carro do meu Cunhado á porta de casa na Atalaia fiz uma paragem, para o cumprimentar, afinal também lá estava a minha Irmã, tinham vindo os dois preparar a casa para a semana que vem receberem uns Amigos que vão fazer uma caminhada, e a casa vai transformar-se provisoriamente em Hotel, aproveitem agora que quando forem Avós (o que vai acontecer brevemente em dose dupla) já vão ter mais dificuldade em arranjar tempo para tudo.
Conversámos durante alguns minutos, enquanto isso o Rui ia apanhando um cabaz de «fruta dos pobres» que eu adoro (nêsperas) conversa em dia e regresso a Porto Salvo, onde tinha á minha espera umas sardinhas assadas que a Filha foi comprar á Praça de Paço de Arcos, e que estavam uma categoria, mais á tarde uns caracóis para acompanhar o Portugal-Alemanha, que souberam melhor que o resultado do jogo, mais uam vitória moral.